sábado, 14 de abril de 2012

Tire fotos, filme; mas, antes de tudo, viva!

Ilustração: Beatriz Giosa

Vim, vi, cliquei (Retirado de Crescer.com)

O ano é de 2047, e o pequeno João, 3 anos, pede à mãe: “Mostra de novo quando eu apareci...”. A mãe levanta a manga da blusa e toca numa pulseira roxa e, no mesmo instante, aparece uma tela translúcida na frente dos dois. João rapidamente localiza uma imagem dentro de um quadrado e, com um sorriso no rosto, clica o ar. Então, começa a passar um filme de um espermatozoide ganhando a corrida da vida e mergulhando no grande prêmio, o óvulo! “Sou eu, sou eu”, grita o menino. “Sim, você apareceu na nossa vida nesse instante”, diz a mãe, emocionada.

João não se contenta só com aquela cena, quer mais e mais. Os filmes são intermináveis, todas as fases da gestação, o parto, a amamentação, arrotos, balbucios, papinhas, palavras, engatinhadas, penico, etc. O menino não aguenta e, depois de duas horas, adormece; ele precisaria ficar uma semana inteira acordado para ver toda a sua vida longa de 3 anos.
Esse exercício de futurologia nasceu de uma percepção cada vez maior de como estamos registrando tudo! Andamos sempre com uma máquina fotográfica ou um celular no bolso, prontos para capturar a vida.

Nossos filhos nunca foram tão registrados, gravados, arquivados, twitados, facebookados. Começamos a ver o mundo através de um mediador, uma tela de poucas polegadas que grava, mas não sente. Registramos com intuito de postar, isto é, não vivemos verdadeiramente o que captamos, queremos capturar para os outros verem, com isso não nos damos conta da nossa cegueira infligida. Preocupamo-nos com o foco, o som, o enquadramento, o zoom... e não com o sujeito que está sendo registrado.
Sim, tenho máquina digital, celular que tira fotos, mas sempre procuro me controlar quando experimento emoções na minha vida para não sair capturando imagens. Quero aproveitar a sensação de ver minhas filhas dançando nas festas juninas, quero usar meus olhos para ver um pôr do sol multicolorido no rio Negro! Por que capturar tudo? Por que não deixar buracos no registro que fazemos dos nossos filhos? Por que temos de inundá-los com memórias digitais? O esquecimento é uma dádiva divina, é tão importante esquecer como lembrar. Nossa sociedade é paradoxal, quer se lembrar de tudo filmando tudo, ao mesmo tempo se esquece de coisas fundamentais: brincar com os filhos, sensibilizar-se com as injustiças, brigar por um mundo menos violento, etc.

Há alguns anos, visitando a igreja de São Marcos, em Veneza, descobri no teto uma sequência de iluminuras contando a história bíblica de José e seu manto colorido. Fiquei fascinado com aquilo, as pinturas colocavam roupas medievais nessa antiga história do velho testamento. Chamei minha esposa para compartilhar minha descoberta e comecei a contar pra ela a narrativa daquele homem que acreditava como ninguém no poder dos sonhos. Depois de alguns instantes, um pequeno grupo se juntou a nós, observavam que eu apontava para o teto e falava. Não deu outra, miraram suas máquinas, começaram a disparar flashes e foram embora. Sempre tive a curiosidade de saber o que aquelas pessoas falariam quando vissem essas fotos nos seus computadores.

Da próxima vez que seus filhos estiverem realizando algo que toque você, emocione, filme um pouco, mas deixe um bom tempo para seus olhos, seu corpo inteiro, apreciar a maravilha da experiência real, memorize-a na sua retina, grave no seu coração. Posso afirmar que não há tecnologia na face da Terra que transmitirá o que o você acabou de verdadeiramente capturar.

Ilan Brenman doutor em educação e um dos principais escritores de literatura infantil do Brasil, é pai de Lis, 7 anos, e Iris, 5. E-mail: crescer@ilan.com.brFelipe Gombossy

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